Hora do strip-tease

Por Sérgio Pavarini

“Tive que fazer quebra de maldições porque estava presa às pessoas que beijei antes de me converter. Assim como o sexo ilícito traz doenças, o beijo passa espíritos de uma pessoa para outra.”

O testemunho acima está na comunidade Beijo só no dia do casamento!, no Orkut. O grupo reúne mais de 2.500 jovens. Dezenas de tópicos giram em torno do mesmo tema: beijar é proibido para a galera cristã.

A decisão radical e voluntária remete à rigidez com que o tema já era tratado na década de 70. Alguns acampamentos inspiraram piadas em profusão ao vetar que casais de namorados cometessem o ato devasso de caminhar de mãos dadas. Nas piscinas, os guardiões da moral emulavam Jânio Quadros ao proibir biquínis. Só pensavam naquilo… como todos os jovens!

Após o diagnóstico dos primeiros casos de Aids no início dos anos 80, o discurso endureceu ainda mais. “O meu prazer agora é risco de vida”, cantava Cazuza. Católicos e evangélicos adotaram o discurso ecumênico da falibilidade da camisinha. Enquanto isso, crianças eram abusadas por padres e zilhares de moças solteiras engravidavam e precisavam “reparar o mal” por meio de casamentos marcados pela efemeridade.

Os resultados pífios das cruzadas anti-sexo levaram alguns clérigos a radicalizar o jogo. Muitos só oficiavam casamentos de moças grávidas se elas usassem uma tarja negra no alvíssimo vestido de noiva. Os rapazes também não foram esquecidos. Lembro-me de um pastor que recomendou a um seminarista a ingestão de hormônios para aplacar os desejos sexuais. É mole?

Beleza americana

A preocupação em manter a juventude afastada do sexo continua na agenda da maioria das igrejas. Nos Estados Unidos, atingiu maior grau de sofisticação sob o belicismo tresloucado do governo Bush. Não importa se são soldados iraquianos ou adolescentes com os hormônios açulados, guerra é guerra. Deus salve a América.

Em 2007, o Estado americano investiu US$ 191 milhões em mais de 700 programas que preconizam a abstinência sexual. Calcula-se que no ano passado foram realizados mais de 1.500 “Bailes da Pureza” em todo o país. No evento, adolescentes e pais assumem o compromisso de zelar pela castidade. Segundo a mídia, cerca de 16% das garotas americanas já assinaram compromissos de virgindade. Ao que parece, Deus estranhamente não está na lista de convidados do rega-bofe das imaculadas.

Ao sul do Equador

“Toda religião que, em nome de uma ordem espiritual, impõe sobre o corpo um regime de sistemática repressão, tende a produzir personalidades neuróticas.” A asserção do teólogo e educador Rubem Alves infelizmente tem sido comprovada com freqüência no seio da igreja.

Perdidos em meio ao tiroteio entre os que têm vida sexual regular e os xerifes da castidade, muitos jovens cristãos são confusos a respeito da virgindade, por exemplo. Não é raro que alguns casais tenham total liberdade no namoro, desde que o hímen permaneça zero quilómetro. Desconheço qual o parâmetro usado para os rapazes nesse raciocínio tosco.

A consumação do casamento infelizmente não resolve os problemas na área. Ao contrário, aí é que se manifestam os efeitos retardados decorrentes dos discursos policialescos e castradores ouvidos durante anos. Muitos casais nunca estão sozinhos na cama. Culpa, vergonha e medo são presenças frequentes, destruindo a beleza desse presente sublime do Criador. Igrejas frias e camas mornas (ou o contrário) não são recomendáveis para nenhum lar cristão.

Manter-se afastado dos prazeres sexuais não garante por si só a presença divina em quaisquer faixas etárias. Melhor seria investir tempo e energia na busca de intimidade com Deus. Pra começar, é necessário limar toda a aura de hipocrisia em torno do assunto, como fez a galera do Sexxx Church.

O escritor irlandês Óscar Wilde afirmou que “a maioria das pessoas apenas existe”. Passou a hora de o rebanho se despir do discurso moralista de fachada e, com os braços livres, abraçar a vida em abundância que nos foi prometida. Prazer igual não há!

Sérgio Pavarini – é jornalista e marqueteiro.
Blog: pavablog.blogspot.com
E-mail: pavarini@uol.com.

Tirado de: http://www.jornalahoraonline.com.br/coluna.php?id=145

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