Histórias de Sexologia

01Muitas das mulheres que vão às consultas de Sexologia não têm vontade de ter relações. Mas existe o avesso: algumas mulheres sofrem por se sentirem demasiado excitadas e insatisfeitas, mesmo depois de terem dezenas de orgasmos.

02Foi virgem para o casamento. Depois, descobriu um prazer “louco” com o marido. Tem sempre vontade de ter sexo e os orgasmos multiplicam-se. Nessa altura, o prazer transforma-se num inferno vertiginoso difícil de conduzir. Irene (nome fictício) tem 32 anos, é casada, tem filhos e diz sofrer com o seu apetite sexual. “Já me pus na cama a testar, a estudar o meu corpo. Começo a masturbar-me e posso ter 30 orgasmos. Às vezes, quando me levanto, até caio para o lado, de tão cansada que estou. Queria ver se isto tinha um fim…”, conta. Diagnóstico: perturbação da excitação sexual persistente, um caso raro nas consultas de sexologia, uma vez que a maior parte das mulheres que procura ajuda sofre de falta de desejo, não de excesso.03

“O que faz o diagnóstico de perturbação de excitação sexual persistente é o facto de as sensações de excitação sexual, para além de intensas e persistentes, não serem desejadas e provocarem sofrimento, tanto a nível emocional como físico, pois tornam-se desagradáveis e incomodativas”, explica Graça Santos, psiquiatra na consulta de Sexologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra.
Apesar de sempre ter achado que era sensível, Irene – que já trabalhou numa fábrica e agora está desempregada – só se deparou com um clítoris insaciável aos 20 anos, quando se casou e começou a ter relações. Até lá, nunca imaginou o que iria sentir quando se deitasse com um homem. Gosta de realçar que a04 “primeira vez” foi com o marido e vice-versa. “Tenho imenso prazer com ele”, frisa Irene, que há dois anos começou a ser seguida em consultas de Sexologia.
Este é, porém, um dos casos mais raros com que se deparam os especialistas. A moldura quotidiana é bem diferente: “Nas minhas consultas, só tive duas mulheres que apresentavam casos de perturbação da excitação persistente, para os quais não há tratamento eficaz. O dia-a-dia aqui é precisamente o contrário, é a ausência do desejo, o chamado desejo sexual hipoactivo”, explica Graça Santos.

Causas desconhecidas

O sofrimento de Irene é outro: excita-se com facilidade, por vezes05 sem razão aparente, e tem dificuldade em parar, assim que tem o primeiro orgasmo. “O meu clítoris quer sempre mais. Às vezes até posso estar cansada de ser penetrada, mas quero sempre mais”, desabafa. “Isto é horrível. Evito pensar em sexo para não ficar com vontade”, diz. “Se for fazer, vou ter um, dois, três, quatro, cinco orgasmos maiores e depois uma coisa mínima. Por isso, limito-me a ficar parada. Tive que ganhar um grande poder de me concentrar”, conta, dizendo que já tentou medicação, embora sem sucesso. “Só retardou o orgasmo. Tinha mais tarde, mas a vontade enorme continuava”, suspira.
06Pouco se sabe quanto às causas da perturbação da excitação persistente: “Pensa-se que terá a ver com causas hormonais, mas os doseamentos de hormonas têm-se mostrado normais”, diz Graça Santos, acrescentando que algumas mulheres desenvolveram estas perturbações logo após terem deixado de tomar antidepressivos SSRI (inibidores da recaptação da serotonina). “Uma possibilidade é que seja a síndrome de abstinência destes fármacos a responsável pela perturbação. Mas07 em muitos casos não houve história de a mulher ter tomado estes fármacos”, acrescenta.
Casada há cerca de 12 anos, Irene tem um filho de 10 e uma filha de seis. Diz que já fez sexo com o marido de todas as formas e feitios. “Sexo oral, anal, masturbação, tudo… para ver se esta vontade saía, mas nada. Esta vontade no clítoris não me deixa. Quero sempre mais uma vez. Por que é que tenho esta falha?”, questiona.
À medida que se quebram estereótipos, preconceitos e medos em redor da sexualidade feminina, histórias como as de Irene têm sido contadas. O mesmo se passa com a adição sexual. Durante algum tempo, parecia que apenas os homens a conheciam e sofriam com ela. Agora, surgem também testemunhos de mulheres dependentes do sexo que procuram apoio.

Adição sexual

Mas o que distingue a perturbação da excitação persistente da adição sexual? Na adição, “embora depois dos actos 08possa haver arrependimento e auto-recriminações, a actividade sexual é vivida como um alívio imediato da tensão”. “Pouco tempo depois, repete-se todo o processo de desejo, procura, actividade e alívio da tensão. Na perturbação da excitação sexual é ao contrário. Quanto mais se envolvem em actividade sexual, maior é o desconforto”, diz a médica.
E confirma-se: Irene evita iniciar a actividade sexual para não ter que sofrer com a persistência incomodativa da excitação. “Evito ter relações para não ter o primeiro orgasmo. É mais fácil não mexer”, explica. O marido “acaba por sofrer”: “Ele sabe que eu tenho um prazer louco com ele. O problema não é esse, é esta vontade de explodir”, diz.09
A perturbação da excitação sexual persistente não está, porém, descrita na mais recente versão do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM), espécie de bíblia, elaborada e periodicamente revista pela Associação Psiquiátrica Americana, na qual estão classificados, entre outros, os vários distúrbios sexuais existentes. “Na literatura, alguns autores defendem que ela faça parte das perturbações da excitação. Assim, haveria a perturbação de excitação inibida e, por oposto, a perturbação de excitação persistente, mas para outros devia ser considerada uma perturbação da fase de resolução da resposta sexual”, explica Graça Santos.
Também a adição sexual não é reconhecida no conceituado manual. Existe apenas uma categoria, os distúrbios sexuais sem especificação, entre os quais estão quadros de sexo com sucessivos parceiros, encarados como objectos. 10Já outro compêndio, o CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), produzido pela Organização Mundial de Saúde, fala, na versão mais recente, em conduta sexual excessiva, com duas subclassificações: satiríase (nos homens) e ninfomania (nas mulheres).
Apesar de não haver uma definição consensual e de o próprio conceito de “adição sexual” não ser unanimemente reconhecido pela comunidade científica, pode dizer-se – de acordo com os especialistas que defendem que existe – que apresenta sinais idênticos aos de outras dependências. O sexo domina os pensamentos, o que faz com que a pessoa se mobilize em torno de um objectivo: a satisfação sexual. Depois de consumar o acto, e apesar de sentir gratificação sexual, a pessoa enfrenta também uma sensação de desânimo. Além disso, é habitual tentar esconder a actividade sexual que mantém e só reconhecer que tem um problema quando o emprego, a relação com a família, com os amigos e o casamento começam a ser prejudicados.

Normalidade?

Embora haja uma grande polémica em redor do tema, existem relatos, sobretudo nas páginas da imprensa internacional, de um crescente número de mulheres “viciadas em sexo”, havendo mesmo – nos Estados Unidos, por exemplo – clínicas de recuperação exclusivamente vocacionadas para o tratamento desta dependência. Há, porém, especialistas que defendem que a adição sexual é uma criação destas clínicas particulares e dos meios de comunicação social. Muitos alegam que os pacientes que se queixam de adição sexual sofrem, por vezes, de perturbação obsessivo-compulsiva e podem apresentar quadros relacionados com álcool e drogas.11

Para o psiquiatra Tiago Marques, quando se fala em adição sexual, não é tanto a quantidade de sexo que interessa mas o sofrimento a ele associado. “Não podemos dizer que algo que é normal como o sexo tem um limite superior de normalidade… Esse limite encontra-se onde começa a interferir com a vida da pessoa”, explica. Para o psiquiatra, a adição sexual pode caracterizar-se pela “existência de comportamentos ou pensamentos sexuais excessivos ou inapropriados que levam uma alteração no funcionamento em diversos domínios da vida de um indivíduo”, como sejam a “vida social, pessoal ou profissional”, causando “sofrimento pessoal subjectivo”.
A mesma opinião tem Graça Santos: “É muito difícil quantificar o12 que é adição sexual. Por exemplo, é normal – embora tentemos fugir muito à questão da normalidade – que um casal apaixonado tenha desejo várias vezes ao dia”, diz.
Uma ideia também defendida pelo sexólogo Júlio Machado Vaz, que não gosta de falar em pessoas viciadas em sexo, mas antes de dependentes de sexo. “A palavra vício tem conotações morais que não me agradam”, explica, garantindo que existem mulheres e homens dependentes do sexo em Portugal. “É hoje entendimento de muitos dos meus colegas que o sexo se pode tornar um comportamento compulsivo, com características de dependência semelhantes ao consumo de drogas ou ao jogo”, frisa. Como saber se é uma dependência? “A fronteira está no carácter compulsivo do comportamento e no mal-estar que provoca, no caso das mulheres agravado pelo duplo padrão moral que ainda existe”, explicou por e-mail.

Cabeça e corpo

Há ainda outras perturbações na actividade sexual que surgem nas consultas e que têm que ser enfrentadas com terapia sexual ou fármacos. “Existem as perturbações do orgasmo. Há mulheres que têm orgasmos e têm uma vida sexual insatisfatória e mulheres que não têm e consideram satisfatório o sexo que praticam. 13Existe ainda a perturbação da dor sexual da qual é exemplo o vaginismo, uma reacção de defesa da mulher que pode ter que ver com experiências traumáticas durante a infância ou pode decorrer de radioterapia vaginal”, diz Graça Santos. Neste último caso, as mulheres não conseguem introduzir nada na vagina e, por isso, não fazem exames ginecológicos nem sexo. “Temos casais que estão juntos há anos e nunca tiveram uma relação”, conta.
Sobretudo no que toca a mulheres, a sexualidade parece não ser, de todo, um mecanismo simples de resposta a um estímulo. Uma teoria reforçada pelas conclusões de um estudo de uma investigadora do Canadá, Meredith Chivers, que foram divulgadas no New York Times e no The Independent.
A cientista mostrou a um grupo de homens e mulheres imagens de cariz sexual: actos de masturbação masculina e feminina, sexo homosesexual, heterossexual, uma ginasta nua, um homem a andar nu numa praia e ainda símios a acasalarem. Durante a experiência, e através de diversos mecanismos, media-se a excitação de cada pessoa – a resposta física de cada uma, como, entre outras 14manifestações, a lubrificação vaginal, nas mulheres, e a erecção do pénis, nos homens. “Ao mesmo tempo, cada participante assinalava, por meio de um comando electrónico, as imagens com as quais se sentia excitado”, refere o The Independent.

Os resultados foram previsíveis nos homens. A resposta física correspondeu ao que assinalaram no comando: sentiram-se excitados com aquilo que dizem que os excita, sobretudo sexo entre mulheres e entre casais heterossexuais. Já nas mulheres o cenário é “diferente”. Apesar das respostas que assinalaram não o indicarem, elas sentiram-se excitadas com quase tudo o que viram: sexo entre homens, entre mulheres, com a ginasta nua, até com os símios. Conclusão: é possível que, muitas vezes, a cabeça e o corpo femininos não estejam em sintonia. Como no caso de Irene.

Artigo de:  Maria João Lopes 06.07.2009

Tirado de: www.jn.pt

Fotografias tiradas da internet / All photos were taken from internet

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3 comentários

  1. Texto interessante, realmente não há nada como o equilíbrio em tudo…
    Ainda te lembras da Lua Feiticeira?
    Regressei com a Heidi.
    Jocas

  2. Está bem que para as mulheres pode ser um problema, agora para os homens é o paraíso, parte dois, sem direito a maçã ou cobra!

  3. A verdade é que por vezes a insatisfação existe, porque há prazeres por descobrir…

    Confesso que fui uma ”louca insaciável” até descobrir o BDSM. E ao contrário do que se possa pensar, isso pode tornar-se cansativo para a relação a dois.

    Não generalizando, se calhar o que faz falta a algumas dessas pessoas é explorar para além da sexualidade dita comum…

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